sábado, 11 de maio de 2013

O lado sentimental de Bob Marley


Este texto foi publicado na página do webzine Massive Reggae e a estou reproduzindo em homenagem a Bob Marley, falecido há exatos 32 anos, e ao Dia Nacional do Reggae. 

O lado sentimental de Bob Marley

Leo Vidigal


A vida de Bob Marley tem sido contada, recontada e analisada em milhares de teses, artigos, livros,  e páginas da Internet. Novos relatos foram ou estão sendo lançados e continuarão sendo ao longo dos anos, afinal ele é um dos artistas mais influentes do século. Ao mesmo tempo novos lançamentos na área musical têm trazido à tona obras do mestre do reggae que apenas algumas pessoas haviam ouvido até hoje. No entanto, enquanto sua vida continua sendo revolvida, há pouca coisa escrita sobre a sua obra. Uma das exceções foi o artigo que Michael Kuelker escreveu para edição anual de 1999 da revista americana The Beat sobre Marley chamado "Bob Marley à luz do Livro dos Provérbios", em que ele traça as influências deste livro da Bíblia sobre as letras das canções do Tuff Gong. Menos ainda foi escrito sobre o lado romântico de Marley, o que é uma pena, pois ele nos brindou com algumas das mais belas canções de amor da história da música popular. 

Parte do que foi publicado sobre ele fala de sua atribulada vida amorosa, dos vários filhos que deixou com diversas mulheres, da sua inconstância nos relacionamentos, mas pouco foi dito sobre suas letras, que sempre louvaram, lamentaram a falta ou relataram boas experiências com elas, jamais as desrespeitando, como em alguns exemplares da música jamaicana atual. O lado emotivo foi certamente importante na obra de Bob Marley, mas muitas vezes passou desapercebido, ofuscado ora pelo perfil militante que ele privilegiou nos últimos anos de vida, ora pelo perfil mulherengo que alguns querem ressaltar em sua trajetória. E mesmo assim foi a vertente responsável por alguns dos maiores sucessos do rei do reggae, ajudando a tornar o gênero popular em todo o mundo.

No início da carreira, Marley foi influenciado por grupos americanos como os Impressions (liderado por Curtis Mayfield, autor de "Keep on Moving", muitas vezes atribuída a Marley). Por tais conexões, ele gravou, como um dos Wailers, diversos clássicos do cancioneiro romântico, como 'Ten Commandments of Love', 'Teenager in Love' e até 'And I love Her', dos Beatles. Marley também era o que compunha a grande maioria das canções de amor dos Wailers, como "Do you feel the same way", "Do you remember" ('Do you remember the first time we met? / It was a moment I never will forget... - Você se lembra da primeira vez que nos encontramos? / Foi um momento que nunca esquecerei...), "I'm still waiting", a comovente "Wages of Love", "There she goes" , "I Need You", "Diamond Baby", "I Don't Need your Love", entre outras gravadas para Coxsonne Dodd até 1967. Foi talvez a fase em que Bob deixou que sua emoção transparecesse de forma mais explícita nas gravações, coincidindo com seu romance e casamento com Rita Marley, em 66. São faixas que vão do ska ao rocksteady, acompanhando as tendências da música jamaicana (que podem ser ouvidos em coletâneas como 'Birth of a legend' [Columbia] e 'One Love' [Heartbeat]). Mas logo seriam os Wailers que ditariam o ritmo na ilha. Enquanto isso não acontecia, eles continuavam em sua busca pelo reconhecimento, gravando no final dos anos 60 com vários produtores, como Leslie Kong, Danny Sims e Lee Perry. Com eles Marley exacerbou o seu lado conquistador, gravando faixas que traziam insinuações sexuais, como "Stir it Up", "Do it Twice", "Try me", "No Water", entre outras. Logo o som dos Wailers estaria maduro para o mercado internacional e este começou a ser ganho a partir da entrada do grupo na gravadora inglesa Island.

O romantismo ficou em segundo plano e os quatro primeiros álbuns dos Wailers para a Island destacaram a face militante e a espiritual do grupo. Era justamente na conjugação destes dois lados que estava a originalidade da banda e foi por isso também que estes aspectos de sua música foram privilegiados, apesar da vida amorosa de Marley continuar movimentada. Nos quatro primeiros álbuns sob este selo, 'Catch a Fire', 'Burning', 'Natty Dread' e 'Rastaman Vibration' (neste dois últimos sem Bunny Wailer e Peter Tosh), apenas a regravação de 'Stir it Up' e 'Baby we've got a Date' tocavam no tema amoroso. Tema que, não por acaso, voltaria com força apenas nos dois discos lançados após o atentado que quase tirou a vida de Marley em 76, que foram 'Exodus' e 'Kaya'. 

'Exodus', eleito pela revista Time como o álbum do século, ainda traz as sequelas do atentado, mas também o que um dos biógrafos de Marley, o jornalista Stephen Davis (que também escreveu o clássico 'Reggae Bloodlines'), considerou como 'as canções de amor mais passionais e mais profundamente sentidas que ele jamais escreveu', o que aquele autor considerou como um reflexo de seu caso com a modelo jamaicana Cindy Breakspeare (eleita Miss Mundo em 1976 e é por muitos considerada como o grande amor de Marley, relacionamento que gerou o hoje também cantor e DJ Demian Marley). 'Waiting in Vain' (que muitos entendem ter sido dirigido a ela) retoma o tema da espera também explorado em 'I'm still waiting' (uma canção da primeira fase dos Wailers). 'Turn your lights down low', uma canção pouco conhecida do repertório de Bob (que ganhou uma bela versão cantada por sua ex-nora Lauryn Hill), são de uma rara inspiração, traduzindo um momento de bonança emotiva.

Em 'Kaya' predomina a postura de celebração da vida, com gravações extremamente relaxadas que contam as pequenas alegrias do cotidiano, como 'Easy Skanking', que abre o álbum. Outras faixas como 'Sun is Shining', uma regravação de uma de suas colaborações com Lee Perry (ver Dread Times), a própria faixa-título e, naturalmente, as faixas de cunho romântico, vão na mesma direção. 'Kaya' traz a mais conhecida canção de amor de Bob, "Is This Love", onde Marley 'põe as cartas na mesa' e se declara para sua amada, dizendo querer morar com ela, ser legal com ela, enfim, tudo o que uma mulher gostaria de ouvir em uma situação como essa. Por outro lado também traz 'She's Gone', canção que é uma espécie de continuação da antiga 'There she goes', onde esta narrava a partida da mulher amada, enquanto que naquela o amante abandonado se lamenta por tê-la deixado partir. Aliás, o número razoável de músicas de 'dor-de-cotovelo' na obra de Marley parece sugerir que ele também sofreu nas mãos de suas mulheres. 

Outra regravação da época de Perry, 'Satisfy my soul', talvez seja a que melhor traduz o espírito do álbum, onde Marley pede à mulher que não o abandone porque ela satisfaz a sua alma, evocando uma das grandes paixões do cotidiano dos jamaicanos, a corrida de cavalos, ao cantar que ela o faz se sentir como um vencedor da 'sweep-stake', que é uma modalidade de competição eqüina.Mas o destino iria intervir novamente e a descoberta da doença que acabaria por levar Marley para Zion, em 81, fez com que ele mais uma vez se concentrasse na mensagem político-religiosa, pois sentia que tinha pouco tempo e queria fazer as coisas acontecerem. E foi justamente o que ele fez ao compor músicas como "Zimbabwe", responsável pela inspiração revolucionária dos combatentes daquele país em sua luta contra o regime de dominação dos colonizadores de ingleses (e alguns rumores dizem que ele teria inclusive financiado a compra de armas para eles, o que não é de todo improvável). Assim, os seus últimos álbuns, que são 'Survival', 'Uprising' e ''Confrontation', passam ao largo do romantismo (a faixa 'Could you be Loved', apesar do título, é mais um apelo para as pessoas lutarem por suas vidas, do que uma canção de amor).

Recentemente o documentário "Rebel Music" abordou com mais profundidade o papel das mulheres na vida de Marley, com depoimentos de Esther Anderson, contratada pela Island para trabalhar com Marley e que acabou tendo um caso com ele (ela diz ter inclusive sugerido versos para músicas como "I Shot the Sheriff") e Cindy Breakspeare. Rita esclarece que nunca lidou com naturalidade com a questão mas que hoje aceita os filhos que Marley teve com outras mulheres como se fossem seus. 

O amor e o sexo são temas vitais, cantados por Marley enquanto ele se sentia pleno de vida e sentimento. Ele fez canções sobre todos os sentimentos envolvidos nos relacionamentos amorosos, como desejo, ternura, abandono, desespero, fossa, alegria, companheirismo. Que sua produção romântica tenha sido negligenciada em seus últimos anos foi uma indicação clara de sua partida iminente. 

Talvez alguns entendam que este foi um tema menor em sua carreira, mas um estudo de maior fôlego sobre sua vida e obra pode mostrar que este era um lado importante e não marginal da sua personalidade. Uma faceta que ele só deixou de traduzir em suas canções quando precisou marcar uma imagem nítida para o público fora da Jamaica e quando sua vitalidade já estava sendo minada pelo câncer. 

Negar o Bob Marley terno, o Bob Marley amoroso é negar a sua vida, é reduzí-lo ao estereótipo, é terraplanar a personalidade complexa de um ser humano como nós. Falar do Bob Marley sentimental é falar deste lado humano tantas vezes ofuscado por uma imagem onipresente que foi construída em parte pela mídia e em parte por ele mesmo. Um estudo mais aprofundado sobre este assunto poderá revelar nuances desconhecidas do homem e do artista Bob Marley.

Fontes para este artigo: Revista The Beat , Bob Marley (Stephen Davis), Documentário "Rebel Music", de Jeremy Marre.

Dedico este post à minha mulher, Laura Guimarães

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal à Jamaicana


Leo Vidigal



Como o Natal está chegando, pensei que seria interessante escrever algo sobre a relação entre a festa cristã que celebra o nascimento de Jesus e o reggae. Na Jamaica, onde o reggae começou a ser praticado, o Natal também é comemorado com uma grande festa, como na maioria dos países onde o cristianismo é a religião predominante. Ruas decoradas e fechadas, troca de presentes, estourar de fogos, cartões de Natal etc, mas existem algumas diferenças significativas em relação aos costumes de outros países. O panetone, por exemplo, é feito com frutas marinadas no vinho (ver foto acima). Os pratos principais são outros, como o pato assado, o bode ao curry e o rosbife com ervas, resultado das diversas matrizes culturais que se cruzaram e ainda estão transformando a cultura praticada na ilha. Mas pratos como o tradicional pernil e o presunto também são comuns, menos entre as famílias rastafari, que comemoram o Natal “ocidental” com menos festividades, e não comem porco (na verdade eles são praticamente vegetarianos). Os rastas comemoram com mais intensidade o Natal etíope, no dia 7 de janeiro, de acordo com o calendário da Igreja Ortodoxa do país africano que é uma referência para eles. Os rastafaris não fazem troca de presentes, à semelhança dos etíopes, mas tocam seus tambores nyabinghi e fazem leituras e discussões teológicas noite adentro. 

Uma das diferenças mais marcantes entre as celebrações de Natal da Jamaica (e do Caribe) e as de outros lugares são os desfiles junkunoo, ou John Canoe, compostos por uma parada de músicos e dançarinos mascarados, em uma festa que remonta aos tempos da escravidão. Ela acontecia nessa época porque o Natal era uma das poucas ocasiões em que os escravos eram liberados de suas tarefas e podiam realizar uma festa mais elaborada. Segundo os estudiosos das festas populares jamaicanas, ela começou provavelmente como uma recriação das festividades que ocorriam na época da colheita do inhame entre os ashantis de Gana, origem da maior parte da população atual da ilha. Nesse desfile, os dançarinos se movem ao som de tambores quadrados e tocados com duas baquetas, que também são passadas em uma espécie de reco-reco, escavado em um dos lados do tambor. Os músicos tocam diversas batidas, das mais africanizadas até as mais influenciadas pelos bailes que aconteciam para divertir os europeus que dominaram a ilha, onde os ancestrais escravos dos instrumentistas também tocavam, relembrando o tipo de intercâmbio musical que gerou a música praticada atualmente na Jamaica. Existem diferentes variedades de desfiles junkunoo, que podem ter personagens como reis e rainhas, mas também participantes com máscaras de guerreiros africanos, índios, policiais, animais como cavalos e vacas, espíritos da floresta, entre outros. Eles são considerados como um movimento de resistência da cultura africana na Jamaica, acontecendo com mais frequência nas áreas rurais. Já no arquipélago das Bahamas, o junkanoo é uma das principais festas do ano.

Outra tradição na ilha é o lançamento de diversas versões de canções natalinas nessa época, como “Noite Feliz”, por artistas de várias vertentes. A maior parte delas saía até pouco tempo atrás apenas no formato mais popular: os compactos de 7 polegadas que foram a base da economia fonográfica da ilha caribenha (como, por exemplo, "Santa Claus is coming to town", de General Trees), que têm a vantagem de quase sempre trazer no lado B a versão dub ou instrumental. Hoje em dia a Internet e os CDs temáticos de Natal são as principais formas de distribuição dessas faixas. Algumas dessas faixas podem ser encontrados na rede, muitas vezes produzidos por nomes consagrados. Jacob Miller, por exemplo, teve lançada uma compilação póstuma chamada “Natty Christmas”, enquanto a dupla Sly & Robbie se saiu com “Taxi Christmas” (Taxi é o nome do selo jamaicano dos dois parceiros) e Yellowman com o fraco “A very very yellow Christmas”, todos da gravadora Ras Records. Essa gravadora também lançou coletâneas com artistas conhecidos e outros nem tanto, como “Reggae Christmas” e “Reggae Pulse 4 – Christmas Songs” (o último lançado pela Ras). Artistas como John Holt, The Maytals, Jackie Edwards, Desmond Dekker, Rupie Edwards, Horace Andy, Jackie Mitoo, Johnny Clarke e até os Wailers originais já lançaram músicas de Natal. 


Não é possível afirmar com certeza a razão de tamanha produção natalina, mas algumas pistas podem ajudar a entender essa tradição. Na verdade essa prática teve início nos Estados Unidos, e não se pode ignorar a influência americana sobre a Jamaica (que sempre foi forte, até pela proximidade), mas hoje em dia esse tipo de lançamento já não é tão comum nas terras do norte, enquanto continua forte entre os jamaicanos. A religiosidade acentuada do povo da ilha do reggae tembém é um elemento a se considerar, pois boa parte da população freqüenta as igrejas cristãs ou afro-cristãs e o Natal é a festa principal do cristianismo, a mais alegre e popular. 


Outra razão é mais profana: o sistema de venda em compactos, que favorecia o lançamento de faixas temáticas. É mais fácil produzir uma faixa por vez do que material suficiente para produzir um álbum, como acontece aqui no Brasil. Os disquinhos vão sendo lançados e, se venderem bem, saem novas tiragens e novas músicas, é a lei da oferta e da procura. E se há tanta produção, é porque esse tema vende bem. Essa prática de lançar músicas de Natal na Jamaica provavelmente começou com o pioneiro Coxsonne Dodd. Era ele mesmo que, para conseguir sustentar seu negócio, fazia compositores produtivos como os Wailers pararem de gravar suas músicas para trabalhar em versões de Beatles, Bob Dylan, gospels e músicas de Natal, como “White Christmas”. Essa canção em especial, que teve uma versão com os Wailers mesmo com sua letra sobre o Natal com neve, soa ainda mais deslocada em um país tropical como a Jamaica, mas ainda assim é uma das mais adaptadas para o reggae. 





A maior amostra da vasta produção natalina do produtor mais importante da história do reggae é justamente o ótimo “Reggae Christmas from Studio One”, que saiu pela gravadora Hearbeat, onde artistas ligados ao famoso estúdio de Coxsonne Dodd prestam sua homenagem à data. Ela conta, além dos Wailers (na fase ska do trio, o que torna a faixa “Sound the Trumpet” ainda mais interessante, veja e ouça abaixo), com boas canções originais de Brent Dowe (ex-vocalista dos Melodians, recém-falecido, ver video abaixoo), Alton Ellis (também recém-falecido), Johnny Osbourne e versões inspiradas de clássicos como “Jingle Bells”, “Little Drummer Boy”, entre outras. Ainda traz uma faixa do DJ Dillinger chamada “Hi Fashion Christmas” e até mesmo uma versão para o riddim (base instrumental) "Real Rock", chamada apropriadamente de "Real Christmas Rock".





Há quem fique incomodado com esse tipo de lançamento por demais motivado pela ocasião, ainda mais em uma data de cunho religioso, mas, quando não são feitos a toque de caixa, os reggaes de Natal podem integrar dignamente o repertório de qualquer artista jamaicano. Uma prova é a maior compilação já lançada desse tema, a caixa de três CDs Trojan Christmas Box Set, que traz algumas das melhores produções do gênero e pode ser encomendada facilmente pela rede. 

Apesar da onda globalizante (ou seria americanizante?), o Natal à Jamaicana tem suas peculiaridades e observá-las nos faz lembrar tanto da riqueza da diversidade cultural mundial (que é sempre dinâmica e viva, mas que também precisa ser preservada), quanto dos valores mais profundos de solidiariedade e espiritualidade, inspirados pelo Natal, que o consumismo vem escamoteando nos últimos tempos.


A todos um ótimo Natal e um 2011 melhor ainda.